Pacientes compartilham desafios e conquistas de viver com estomia em encontro no Hospital de Santa Maria

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Pacientes compartilham desafios e conquistas de viver com estomia em encontro no Hospital de Santa Maria

Pacientes compartilham desafios e conquistas de viver com estomia em encontro no Hospital de Santa Maria

Evento reúne relatos de quem utiliza bolsa coletora e orientações de especialistas sobre cuidados, alimentação e qualidade de vida

Por Jurana Lopes

Enquanto Lucimaria Oliveira encontrou na própria história uma forma de incentivar outras pessoas, Raimunda Cavalcante precisou superar o medo até de olhar para a bolsa coletora. Com experiências diferentes, as duas compartilham uma conquista: aprender a conviver com a estomia e recuperar a autonomia. Seus relatos marcaram o encontro realizado nesta quinta-feira (5), no Hospital Regional de Santa Maria (HRSM).

Administrado pelo Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (IgesDF), o hospital promoveu o IV Encontro das Pessoas com Estomia e o II Simpósio de Assistência à Pessoa com Estomia, com o tema “Viver Bem, Viver com Estomia”.

Evento reúne relatos de quem utiliza bolsa coletora e orientações de especialistas sobre cuidados, alimentação e qualidade de vida | Foto: Divulgação/IgesDF

A programação reuniu pacientes, profissionais de saúde e residentes para compartilhar experiências e esclarecer dúvidas sobre o uso da bolsa coletora, alimentação, prevenção de complicações, cuidados com a pele, reabilitação e inclusão social. A iniciativa também buscou ampliar a visibilidade das pessoas com estomia e destacar a importância da informação e do acompanhamento especializado na adaptação à rotina.

Histórias de adaptação e autonomia

Lucimaria Oliveira utiliza uma bolsa de colostomia definitiva após o tratamento de um câncer intestinal. Há cinco anos convivendo com a estomia, ela encontrou nas redes sociais uma maneira de compartilhar sua experiência, combater o preconceito e encorajar quem enfrenta a mesma situação.

“Eu não tenho vergonha. No dia em que completo mais um ano da cirurgia, digo que nasci de novo. Posto fotos, vídeos e conto minha história para mostrar como estou vivendo. A vida continua, não precisa parar por causa da bolsa”, afirma.

A experiência também a motivou a orientar outras pessoas que estão começando a utilizar o dispositivo.

“Quando encontro alguém que usa bolsa, procuro conversar, ajudar e explicar como funciona. Quero que a pessoa fique tranquila e entenda que pode continuar vivendo sua vida”, acrescenta.

Para Raimunda Cavalcante, que convive com uma estomia há cerca de seis anos, a adaptação exigiu mais tempo. No início, ela dependia de uma enfermeira para trocar a bolsa coletora e tinha receio até mesmo de olhar para o dispositivo. Aos poucos, aprendeu a realizar os próprios cuidados e recuperou a confiança para retomar a rotina.

“Passei mais de um mês sem conseguir trocar a bolsa sozinha. Tinha medo até de olhar. Não saía de casa porque achava que estava com mau cheiro, me afastei de tudo, fiquei depressiva. Depois comecei a aprender, fui fazendo as trocas e perdi o medo”, relata.

As experiências mostram que cada pessoa enfrenta desafios diferentes e que o acesso à orientação profissional, aliado à troca de vivências com outros pacientes, pode tornar o processo de adaptação mais seguro.

Entenda o que é uma estomia

A estomia é uma abertura criada cirurgicamente para estabelecer uma comunicação entre um órgão interno e o meio externo, permitindo a eliminação de resíduos ou a realização de funções específicas, conforme a necessidade clínica.

Entre os principais tipos estão a colostomia, que permite a eliminação de fezes pelo intestino grosso; a ileostomia, realizada no intestino delgado; e a urostomia, destinada à eliminação de urina. Também existem estomias utilizadas para alimentação, como a gastrostomia e a jejunostomia.

O procedimento pode ser necessário em situações como câncer colorretal, complicações de doenças intestinais, obstruções, perfurações e traumas abdominais graves. Em determinadas emergências, a estomia é essencial para controlar complicações e preservar a vida enquanto o paciente recebe o tratamento adequado.

A condição pode ser temporária, quando existe possibilidade de reconstrução do trânsito intestinal ou urinário, ou definitiva, quando o restabelecimento da função natural não é possível. Essa definição depende da doença de origem, das condições clínicas e da técnica cirúrgica utilizada.

O gerente de Serviços Cirúrgicos do HRSM, Franklin Santos, explica que muitas estomias intestinais são realizadas em situações graves, quando é necessário desviar o trânsito intestinal para proteger a saúde do paciente.

“Em muitos casos, a estomia é realizada porque houve uma doença intestinal que exigiu uma intervenção para que o paciente pudesse superar aquela situação. Mas isso não significa, necessariamente, que a bolsa será definitiva. Sempre que houver indicação e condições clínicas, é importante avaliar a possibilidade de reconstrução do trânsito intestinal”, explica.

Segundo Franklin, a possibilidade e o momento de uma cirurgia de reconstrução dependem de avaliação individualizada. O especialista destaca que, de modo geral, apenas 10% dos casos são definitivos.

Acompanhamento e qualidade de vida

No HRSM, aproximadamente 180 pessoas com estomia são acompanhadas pelo polo de atendimento da região de Santa Maria, segundo a gerente de Cuidados Ambulatoriais do hospital, Raiane Alves. O serviço oferece orientações sobre o manuseio dos equipamentos, prevenção de complicações, cuidados com a pele e adaptação às atividades diárias.

Os pacientes chegam por encaminhamento e passam por uma avaliação inicial, na qual recebem informações sobre a utilização dos insumos, a troca da bolsa coletora e a identificação de possíveis alterações.

“O nosso trabalho vai além de ensinar a trocar uma bolsa. Queremos que o paciente conquiste autonomia e segurança para cuidar de si mesmo. Ele precisa aprender a lidar com o equipamento, reconhecer possíveis alterações e entender que pode retomar suas atividades, respeitando suas condições de saúde”, explica Raiane, que também é enfermeira especialista em estomias.

Após adquirir segurança para realizar os cuidados diários, a pessoa continua vinculada ao serviço para retirada periódica dos insumos e novas avaliações, quando necessárias. O acompanhamento também considera aspectos emocionais e sociais, especialmente diante das expectativas relacionadas à possibilidade de reconstrução intestinal.

“Cada paciente tem uma história e uma condição clínica diferente. Por isso, trabalhamos com orientação, acolhimento e preparo para cada etapa, sem criar expectativas sobre procedimentos que nem sempre são possíveis. O mais importante é que a pessoa aprenda a viver bem e tenha qualidade de vida durante todo esse processo”, destaca.

Durante o encontro, os profissionais reforçaram a importância dos cuidados com a pele ao redor da estomia. O contato com resíduos eliminados pelo organismo, problemas de vedação e dificuldades no manuseio dos equipamentos podem provocar irritações e lesões. Para prevenir essas complicações, são fundamentais a escolha adequada da bolsa, a medição do estoma, o recorte correto da placa e a observação de possíveis alterações.

A alimentação também recebeu atenção especial. A nutricionista Laryssa Paz explica que as orientações devem considerar as necessidades nutricionais, o funcionamento intestinal e a tolerância de cada paciente aos alimentos.

“O paciente precisa conhecer melhor a resposta do próprio organismo aos alimentos. Dependendo da forma de preparo e da quantidade consumida, podem ocorrer alterações na consistência das fezes, produção de gases e desconfortos. Nosso papel é orientar e acompanhar essa adaptação para que ele tenha uma alimentação adequada e qualidade de vida”, explica.

Segundo Laryssa, algumas pessoas podem precisar de suplementação nutricional, especialmente quando apresentam perda de peso ou dificuldades para atingir suas necessidades alimentares. O acompanhamento individualizado permite ajustar a dieta ao longo do tempo, evitando restrições desnecessárias.

Além das orientações clínicas, a programação abordou os impactos emocionais, sociais e econômicos da estomia. As mudanças na rotina, a necessidade de utilizar dispositivos coletores e eventuais afastamentos do trabalho podem representar desafios para os pacientes e suas famílias.

Com acompanhamento adequado e acesso aos equipamentos necessários, muitas pessoas conseguem estudar, trabalhar, viajar e participar de atividades de lazer. A prática de exercícios físicos e a vida íntima e afetiva também podem ser mantidas, respeitando as condições clínicas e as recomendações da equipe assistencial.

A reabilitação envolve diferentes áreas da saúde, como Enfermagem, Medicina, Nutrição, Psicologia, Serviço Social, Terapia Ocupacional e Fonoaudiologia, que atuam de forma integrada para atender às necessidades de cada paciente.

Responsável pela organização do evento, o presidente da Comissão de Prevenção e Cuidados com a Pele e Estomias (CPCPE) do HRSM, Eduardo Loiola, destaca que a iniciativa também busca combater a invisibilidade das pessoas com estomia e ampliar os espaços de escuta.

“Muitas vezes, o paciente com estomia não é ouvido como deveria. Queremos proporcionar um espaço em que ele possa aprender, compartilhar experiências e conhecer outras pessoas que enfrentam situações semelhantes. Hoje, tivemos pacientes que já convivem há bastante tempo com a estomia ajudando aqueles que ainda estão no início dessa jornada”, relata.

Eduardo ressalta que a programação foi planejada para reunir diferentes especialidades e abordar o cuidado de maneira integral.

“A pessoa com estomia precisa de uma assistência multiprofissional. Não é apenas a Enfermagem que participa desse cuidado. Temos médicos, nutricionistas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais e outros profissionais que contribuem para a reabilitação e a qualidade de vida. Precisamos dar visibilidade a esse paciente e às suas necessidades”, ressalta.

Para a residente de Enfermagem Eliene Maria de Jesus, do Centro Cirúrgico, a iniciativa também contribui para a formação dos profissionais e para a redução de preconceitos.

“É uma oportunidade muito importante de aprendizado. Muitos pacientes ficam assustados quando descobrem que precisarão de uma estomia, e alguns profissionais também ainda não tiveram contato com esse tipo de cuidado. Quanto mais conhecimento tivermos, melhor será a assistência”, avalia.

O encontro foi realizado pela CPCPE, com apoio do Núcleo de Educação Permanente (Nudep) e do Núcleo de Tecnologias Educacionais (Nuted). A programação incluiu oficinas práticas, palestras e relatos de pacientes, abordando desde a realização dos procedimentos cirúrgicos até a autonomia funcional, o trabalho e a reinserção social.

“Porque viver com uma estomia pode exigir adaptações, mas não significa abrir mão dos sonhos, da independência ou da alegria de viver”, conclui a paciente Lucimaria Oliveira.

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