
Durante cinco ou seis anos, Amanda Vieira, de 37 anos, conviveu com um desconforto persistente no lado direito do rosto sem saber exatamente o que o provocava. Mesmo mantendo os cuidados odontológicos na Unidade Básica de Saúde (UBS), já havia passado por dois tratamentos de canal na região. Foi durante uma avaliação especializada no Hospital Regional de Santa Maria (HRSM) que descobriu um hábito até então despercebido: apertava os dentes involuntariamente.
“Eu nunca tinha prestado atenção nisso. Depois que a doutora Aline me alertou, saí do hospital e percebi que estava apertando os dentes. Foi quando comecei a ter consciência de algo que fazia sem perceber”, relata Amanda.
O caso da paciente é um exemplo da assistência oferecida pelo Serviço de Odontologia e Cirurgia Bucomaxilofacial do HRSM, administrado pelo Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (IgesDF). Entre janeiro e setembro de 2026, a unidade realizou 7.808 atendimentos odontológicos, sendo 7.009 ambulatoriais e 799 no pronto-socorro. Os números ganham destaque neste 25 de outubro, Dia Nacional do Cirurgião-Dentista, e mostram a abrangência de um serviço que reúne nove especialidades.
No caso de Amanda, a cirurgiã-dentista Aline Rota identificou uma dor crônica nos músculos responsáveis pela mastigação, associada ao bruxismo, comportamento caracterizado pelo apertamento ou ranger dos dentes.
“Recebemos pacientes com diferentes tipos de dor na região das têmporas e da mandíbula. No caso dela, identificamos uma dor crônica nos músculos mastigatórios associada ao bruxismo. Esse apertamento repetitivo provoca sobrecarga da musculatura e pode causar uma dor persistente, além de estar associado a episódios de cefaleia”, explica Aline.
O tratamento incluiu sessões de agulhamento seco, técnica utilizada para aliviar dores musculares, orientações para mudanças de hábitos e uso de uma placa odontológica durante o sono. O acompanhamento também considera fatores como ansiedade, qualidade do sono e o hábito de manter os dentes pressionados durante o dia.
“Antes eu usava medicação para controlar a dor. Com o tratamento, deixei de precisar dessa medicação e a dor diminuiu muito. Estou em acompanhamento há mais de um ano e percebo uma diferença muito grande”, conta Amanda.
Estrutura ampliada e atendimento especializado

Nos últimos 15 anos, o HRSM passou de três para oito consultórios odontológicos e de quatro para nove especialidades. Atualmente, oferece atendimento em endodontia, periodontia, estomatologia, ortodontia, cirurgia bucomaxilofacial, disfunção temporomandibular, radiologia odontológica, assistência a pessoas com deficiência e odontologia hospitalar.
Do total de atendimentos realizados nos primeiros nove meses deste ano, a Cirurgia Bucomaxilofacial respondeu por 2.568 consultas ambulatoriais e 595 atendimentos no pronto-socorro.
“Temos uma estrutura capaz de acompanhar o paciente em diferentes necessidades, desde o atendimento ambulatorial especializado até situações que exigem cirurgia ou assistência dentro da UTI. Essa diversidade aumenta a resolutividade e permite que a Odontologia esteja integrada ao cuidado do paciente como um todo”, destaca Érika Maurienn, chefe do Serviço de Odontologia e Cirurgia Bucomaxilofacial do HRSM.
A unidade também funciona como Centro de Especialidades Odontológicas (CEO) tipo II e oferece acompanhamento integrado para pacientes que precisam de cirurgias de correção do posicionamento dos ossos da face. Mais de 70 procedimentos desse tipo, conhecidos como cirurgias ortognáticas, já foram realizados pela equipe.
O tratamento envolve desde a preparação ortodôntica até a recuperação, com participação de profissionais de Psicologia, Fonoaudiologia, Fisioterapia e Nutrição.
“O paciente encontra todo o acompanhamento dentro do mesmo serviço. A Ortodontia é a porta de entrada para o tratamento ortodôntico-cirúrgico e, a partir daí, temos a integração com a Cirurgia Bucomaxilofacial e com profissionais da Psicologia, Fonoaudiologia, Fisioterapia e Nutrição. Essa atuação conjunta permite olhar não apenas para a cirurgia, mas para todo o processo e para as necessidades do paciente em cada etapa”, destaca Érika.
A ampliação da assistência também foi acompanhada pela incorporação de tecnologias. O HRSM dispõe de tomografia odontológica, radiografia digital e impressão 3D, utilizada desde 2023 no planejamento de cirurgias.
Outro destaque é o atendimento especializado a pessoas com deficiência. O hospital conta com ambulatório específico e realiza procedimentos em centro cirúrgico quando as condições do paciente dificultam o atendimento convencional. Entre os usuários estão pessoas com transtorno do espectro autista (TEA) que, conforme avaliação clínica, podem necessitar de anestesia geral para realizar tratamentos odontológicos.
“Temos pacientes com necessidades muito distintas e precisamos oferecer respostas igualmente individualizadas. A tecnologia, associada à qualificação profissional e à integração com outras especialidades, permite planejar a assistência de acordo com a condição de cada pessoa, inclusive nos casos de maior complexidade”, ressalta Érika.
A assistência especializada também está presente no Hospital de Base do Distrito Federal (HBDF), administrado pelo IgesDF. Na unidade, a Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial atende casos regulados e situações de emergência, incluindo fraturas dos ossos da face associadas a outros traumas, que podem exigir atuação conjunta com equipes de Neurocirurgia.
O Hospital de Base também realiza cirurgias ortognáticas, reconstruções com enxertos e procedimentos para colocação de próteses, além de oferecer atendimento odontológico a pacientes internados.
Assistência odontológica também chega às UTIs
No HRSM, o trabalho dos cirurgiões-dentistas não termina nos consultórios ou centros cirúrgicos. Os profissionais também acompanham pacientes internados, especialmente nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), onde muitos estão sedados, intubados ou impossibilitados de realizar a própria higiene bucal.
Nessas situações, a equipe avalia a cavidade oral, identifica lesões, infecções e alterações provocadas por dispositivos utilizados durante a internação. O trabalho também inclui cuidados para controlar o acúmulo de bactérias na boca e integra as medidas de prevenção de complicações em pacientes submetidos à ventilação mecânica.
Segundo dados do serviço, são emitidos, em média, 1,5 mil pareceres odontológicos por ano, além do acompanhamento de aproximadamente 40 pacientes por dia nas UTIs.
“Quando falamos em Odontologia Hospitalar, estamos falando de cuidado integral. A boca não pode ser vista separadamente do restante do organismo. O cirurgião-dentista integra a equipe multiprofissional para identificar alterações, reduzir riscos e contribuir para a segurança do paciente durante a internação”, salienta a especialista.
A assistência odontológica também pode fazer parte da preparação de pacientes para procedimentos de alta complexidade, como cirurgias cardíacas e transplantes, quando é necessário identificar e tratar possíveis focos infecciosos na boca.
“A atuação do cirurgião-dentista dentro do hospital não se restringe aos dentes. Participamos da assistência multiprofissional, identificamos riscos e ajudamos a prevenir complicações que podem interferir no tratamento e na recuperação do paciente. Saúde bucal também é saúde integral”, reforça Érika.
Seja no acompanhamento de pacientes internados ou no tratamento de condições que comprometem a qualidade de vida, a assistência especializada permite identificar problemas que nem sempre são percebidos nas avaliações iniciais. Para Amanda, compreender a origem da dor foi tão importante quanto conseguir aliviá-la.
“A dor diminuiu muito. Hoje consigo perceber quando estou apertando os dentes e entendo melhor o que acontece comigo”, conta a paciente.



