Prevenir feridas, preservar a mobilidade e reduzir complicações durante a internação são cuidados que fazem diferença na recuperação dos pacientes. No Hospital Regional de Santa Maria (HRSM), esses temas ganharam destaque durante o II Simpósio de Prevenção de Lesão por Pressão, realizado nesta sexta-feira (6). O encontro também apresentou resultados da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) adulto, onde o percentual de pacientes que receberam alta com capacidade de caminhar passou de 28%, em 2025, para 56%, em 2026.

Administrado pelo Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (IgesDF), o hospital promoveu o evento por meio da Comissão de Prevenção e Cuidados com a Pele e Estomias (CPCPE), com apoio do Núcleo de Educação Permanente (Nudep). A programação reuniu especialistas para compartilhar experiências sobre segurança do paciente, cuidados paliativos, prevenção de lesões, novas tecnologias e estratégias de reabilitação.
Entre os principais assuntos discutidos esteve a prevenção das lesões por pressão, feridas que podem surgir quando uma região do corpo permanece pressionada por muito tempo, comprometendo a circulação sanguínea e provocando danos à pele e aos tecidos. O problema exige atenção especial em pessoas com mobilidade reduzida, pacientes em estado grave ou que permanecem internados por períodos prolongados.
Além de causar dor e desconforto, essas lesões podem dificultar a recuperação. Por isso, medidas como mudanças de posição, avaliação frequente da pele e acompanhamento das condições clínicas fazem parte dos cuidados necessários para reduzir os riscos.
A enfermeira do Núcleo da Qualidade e Segurança do Paciente do HRSM, Aline Maciel, explica que a prevenção depende da identificação precoce dos riscos e do envolvimento dos profissionais responsáveis pela assistência.
“A segurança do paciente tem um papel fundamental na prevenção das lesões por pressão, pois nosso compromisso vai além de tratar danos, é atuar para evitar os riscos no serviço de saúde. A prevenção começa com a identificação precoce, passa pela implementação de práticas seguras e depende do envolvimento de toda a equipe multiprofissional”, afirma.
Durante a apresentação, Aline também abordou a importância de registrar as alterações identificadas na pele e notificar as ocorrências. Essas informações permitem acompanhar os resultados das medidas preventivas e identificar oportunidades de melhoria.

“É fundamental registrar em prontuário todas as alterações identificadas e realizar as notificações necessárias. Esses dados permitem acompanhar os indicadores e promover melhorias nos processos. Precisamos compreender que a cultura de notificação não é punitiva, mas uma ferramenta de aprendizado e aprimoramento da assistência”, pontua.
O simpósio também apresentou novas tecnologias utilizadas no tratamento de feridas e discutiu a indicação de coberturas antimicrobianas, materiais empregados em determinadas lesões para auxiliar no controle de microrganismos. A escolha dos recursos deve considerar as características de cada ferida, as condições clínicas e as necessidades do paciente.
Cuidados que fazem a diferença
A atenção à pele de pacientes em cuidados paliativos também ganhou espaço na programação, especialmente quando há feridas de difícil cicatrização ou condições clínicas que limitam as possibilidades de recuperação dos tecidos.
Nessas situações, o tratamento busca aliviar sintomas, evitar complicações e proporcionar conforto. Medidas como higiene adequada, hidratação e proteção da pele precisam ser realizadas com atenção para não provocar dor ou agravar lesões existentes.
O enfermeiro estomaterapeuta do HRSM e membro da CPCPE, Vitor Firmino, explica que as condutas devem respeitar as necessidades de cada pessoa.
“O nosso principal desafio dentro dos cuidados paliativos é prevenir as lesões que podem ser evitadas e manejar os sintomas daquelas que não conseguiremos mais curar. Precisamos ter uma abordagem centrada na pessoa, considerando seus valores, suas necessidades e a proporcionalidade dos cuidados, além de acolher a família, que também precisa compreender o processo enfrentado pelo paciente”, afirma.
O profissional também chama a atenção para aspectos que vão além da prevenção de feridas.
“Os cuidados de higiene, hidratação e proteção da pele são essenciais para manter a dignidade humana. A pele não tem apenas uma função de proteção; ela também é afetiva, é por meio dela que sentimos e entramos em contato com o mundo. Quando conseguimos preservar esse cuidado, o paciente pode vivenciar o toque de maneira carinhosa, e não apenas como uma experiência de dor”, acrescenta.

A enfermeira estomaterapeuta Domitília Bonfim, do Hospital Regional do Guará (HRGu), apresentou diferenças entre lesões por pressão e alterações na pele que podem ocorrer em pacientes na fase final da vida.
Embora algumas dessas manifestações tenham aparência semelhante, nem todas são provocadas pela pressão prolongada. Em determinadas situações, estão relacionadas ao comprometimento da circulação sanguínea e ao agravamento das condições clínicas.
“É fundamental compreender que nem toda alteração na pele de um paciente em fase final de vida é necessariamente uma lesão por pressão. Algumas manifestações podem estar relacionadas ao comprometimento da circulação e das funções do organismo. Por isso, a diferenciação exige avaliação criteriosa, considerando a história clínica, a localização, as características e a velocidade de evolução da lesão, além das medidas preventivas já realizadas”, esclarece Domitília.
Entre os conceitos apresentados estiveram a úlcera terminal de Kennedy e as alterações cutâneas no fim da vida, conhecidas pela sigla SCALE. Essas condições podem provocar mudanças na coloração da pele e apresentar evolução rápida, exigindo avaliação individualizada.
A especialista ressaltou que ainda existem limitações na literatura científica para estabelecer critérios universais de diferenciação dessas manifestações. Por isso, a análise deve considerar o histórico do paciente e os cuidados já realizados.
A comunicação com os familiares também foi discutida. O surgimento de feridas em pessoas gravemente enfermas pode gerar dúvidas, insegurança e sentimentos de culpa, tornando essencial explicar as condições clínicas e as medidas adotadas pela equipe.
Mais pacientes deixam a UTI adulta caminhando
A importância de movimentar os pacientes o mais cedo possível, sempre que as condições clínicas permitem, foi outro destaque do encontro. A mobilização precoce ajuda a reduzir os efeitos da permanência prolongada no leito, como perda de força muscular, dificuldade para caminhar e maior dependência para realizar atividades cotidianas.
Os indicadores apresentados pela UTI adulto do HRSM mostram avanços na recuperação funcional dos pacientes.
Em 2026, 56% receberam alta da unidade com capacidade de caminhar, com ou sem auxílio. Em 2025, esse percentual era de 28% e, em 2024, de 30%. A meta institucional apresentada é superar 60%.

Outro resultado foi a redução do tempo médio necessário para que os pacientes conseguissem sair do leito, que passou de sete dias, em 2024 e 2025, para três dias em 2026.
Também houve melhora na força muscular no momento da alta. Neste ano, 52% dos pacientes apresentaram força muscular normal ou comprometimento leve, ante 22% nos dois anos anteriores.
Entre 367 avaliações relacionadas à evolução funcional, 90% indicaram melhora e 10%, manutenção do quadro. Os resultados ajudam a acompanhar a recuperação dos movimentos e da capacidade de realizar atividades após períodos de internação.
O fisioterapeuta da UTI adulto do HRSM, Matheus Gonçalves, explica que a mobilização acontece de maneira gradual, de acordo com a evolução clínica e a segurança de cada paciente.
“A mobilização pode começar com exercícios e mudanças de posicionamento ainda no leito, avançar para a posição sentada e, conforme a evolução clínica, incluir atividades em pé, transferências e caminhadas assistidas”, detalha.

O acompanhamento também continua após a transferência para a enfermaria, com atividades de reabilitação, orientações aos familiares e preparação para a alta hospitalar.
“Mais do que reduzir o tempo de permanência no leito, a proposta é ajudar o paciente a recuperar movimentos, independência e qualidade de vida”, observa.
Para Vitor Firmino, os debates reforçam a importância de incorporar medidas preventivas à rotina da assistência, considerando os riscos e as necessidades de cada paciente.
“A lesão por pressão não representa apenas uma alteração na pele. Ela pode comprometer a recuperação, prolongar a internação e impactar diretamente a qualidade de vida do paciente. Promover a segurança é fortalecer uma cultura de prevenção, na qual cada avaliação, cada cuidado e cada intervenção fazem a diferença”, destaca.
“Prevenir lesões é também preservar a dignidade, o conforto e a vida de quem está sob nossos cuidados”, conclui Vitor.



