A inteligência artificial pode ajudar a identificar sinais de risco de suicídio, mas ainda enfrenta dificuldades para reconhecer situações em que o sofrimento psíquico não é tão evidente. Esse foi um dos alertas apresentados pelo psiquiatra Sérgio Cabral Filho, chefe do Núcleo de Saúde Mental do Hospital de Base do Distrito Federal (HBDF), durante o XLIII Congresso Brasileiro de Psiquiatria (CBP), realizado de 28 a 31 de outubro, em São Paulo.
Promovido pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), o evento reuniu mais de 5 mil participantes e contou com mais de 400 palestrantes. Com o tema “A Psiquiatria e as transformações sociais: Tecnologia, Cultura, Religião e Espiritualidade”, o encontro abordou avanços científicos, desafios da assistência e novas perspectivas para o cuidado em saúde mental.

Na mesa “Inteligência Artificial e Suicídio: Impactos das Aplicações”, Sérgio discutiu como as novas tecnologias podem influenciar a prevenção do suicídio, tanto pela maneira como os conteúdos relacionados ao tema são apresentados quanto pelas respostas oferecidas pelas ferramentas digitais a pessoas em sofrimento psíquico.
Entre os assuntos abordados estavam os efeitos Werther e Papageno, conceitos utilizados na suicidologia para explicar como a comunicação sobre o suicídio pode influenciar comportamentos. O efeito Werther está associado ao aumento do risco de comportamento suicida relacionado à divulgação inadequada de casos. Já o efeito Papageno representa o potencial protetivo de relatos que apresentam alternativas para enfrentar situações de sofrimento e mostram possibilidades de superação.
O especialista também destacou que a prevenção deve ir além do atendimento em situações de crise. Campanhas como o Setembro Amarelo, por exemplo, precisam apresentar informações responsáveis, evitar abordagens simplistas e contribuir para a conscientização e o acolhimento. “Precisamos falar sobre o suicídio de um jeito responsável, mostrando casos de superação e alternativas. Não podemos simplesmente reduzir, minimizar ou banalizar o tema”, explica Sérgio.
Essa responsabilidade também se aplica ao uso da inteligência artificial. Embora as ferramentas digitais possam auxiliar na orientação inicial, ainda apresentam limitações para reconhecer determinados sinais de risco.

Segundo o psiquiatra, estudos indicam que essas tecnologias identificam com maior facilidade situações extremas, mas encontram dificuldades nos casos intermediários, quando os sinais de alerta são menos evidentes. “O que a inteligência artificial precisa fazer é identificar sinais de alarme e, diante deles, interromper a conversa e orientar a pessoa a procurar ajuda humana”, alerta.
Tecnologia como apoio à rede de saúde
Entre os exemplos de aplicação da inteligência artificial voltada à promoção da saúde mental, Sérgio apresentou a SAMia (Serviço de Assistência em Saúde Mental através de Inteligência Artificial), plataforma desenvolvida em parceria entre a Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF), por meio da Subsecretaria de Saúde Mental (SUSAM), e o Instituto Aplicado de Seleção e Pesquisa (IASP).
A ferramenta utiliza uma interface de conversa para aplicar escalas de avaliação, oferecer orientações e direcionar os usuários aos serviços de saúde mais adequados, conforme as necessidades identificadas.
A iniciativa exemplifica como tecnologias com finalidades específicas podem apoiar a rede de assistência, sem substituir a avaliação e o acompanhamento realizados por profissionais de saúde.
“Soluções com objetivos específicos e protocolos bem definidos podem contribuir para ampliar o acesso à orientação em saúde mental. E as estratégias de cuidado precisam ir além do acolhimento em momentos de crise”, conclui Sérgio.



